Especial Cabaceiras: A terra onde o ouro berra.

Campina Grande, 19 de junho de 2017  ·  Escrito por Érica Ribeiro e Letícia Aragão  ·  Editado por Emanuelle Carvalho  ·  Fotos de Dalisson Markel e Letícia Aragão

“O bode na nossa região é o ouro, o “ouro que berra”! A gente tem toda uma produção em cima disso, porque o bode é a mudança principal quanto a esse desenvolvimento que vem tendo a cidade. Por isso que em Cabaceiras o bode é rei!”

                                                    – José Carlos de Castro, Diretor-Presidente da Arteza.

XIXª Festa do Bode Rei reúne grande público na “Roliúde Nordestina”

Letreiro é o primeiro ponto de parada de quem chega a Cabaceiras

Letreiro é o primeiro ponto de parada de quem chega a Cabaceiras.

Pousando no cenário fílmico da cidade de Cabaceiras – PB, ou na Roliúde Nordestina, como é conhecida nacionalmente, a Festa do Bode Rei chega ao XIX ano. O objeto de destaque da festa, como o próprio título sugere, é o bode, e a cidade faz uso do animal em vários aspectos, desde a ordenha do leite da cabra ao chaveiro feito com o couro. O evento acontece em vários pontos simultâneos da cidade: A entrada principal comporta a Praça do Artesanato, onde é comercializado produtos artesanais locais e de outras regiões; o Parque de Exposições abriga os campeonatos de ordenha, de quebra-côco e outras competições do gênero; o Palhoção Arraial do Liu dos 8 Baixos é enriquecido por trios pé-de-serra e atrações diversas; além de barracas e restaurantes que preenchem a rua principal com especiarias da “culinária bodística” regional.

Por ter um forte caráter cultural e traços típicos da região, a Festa do Bode Rei é a grande responsável por mobilizar a economia da cidade, principalmente, com o turismo e comércio, neste período do ano. Caravanas chegam a todo momento provindas de diversas partes do país. Assim como outros turistas, Claudia Viviane, de João Pessoa-PB, experienciou sua primeira visita tanto à cidade quanto à festa,“eu já tinha ouvido falar da festa, daí recebi o convite e acabei vindo por curiosidade de conhecer.”. Uma parada quase que obrigatória fica localizada bem na entrada da cidade, o letreiro “Roliúde Nordestina”, encanta, não somente, pela divertida referência ao encontrado em Los Angeles como também, pela paisagem ao seu entorno. Teresinha Carvalho que também veio no mesmo grupo de visitantes, comenta sobre o letreiro, “eu sei um pouco do porque desse letreiro ‘Roliúde Nordestina’ na cidade… sei que tem origem pelos diversos filmes que foram feitos aqui.”, ansiosa, conclui, “eu estou bem animada pra Festa do Bode Rei, soube agora que a cidade é muito linda, tem pouco mais de 5 mil habitantes. Não conheço a culinária ‘bodística’ ainda, mas vou provar de tudo”, conta ela animada.

O que esperar da “Culinária Bodística”?

"Xixi de cabrita" foi criado para a festa do Bode Rei

“Xixi de cabrita” foi criado para a festa do Bode Rei.

Não há dúvidas quanto a exoticidade de seu nome nem de seu significativo sucesso durante a Festa do Bode Rei e, apesar de ser apenas uma bebida artesanal, o “Xixi de Cabrita” possui grande valor cultural e econômico para a cidade de Cabaceiras. Responsável por esta especiaria há doze anos, Valdisa Faria Sousa, comenta que a bebida é feita a partir da mistura de leite de cabra, cachaça, limão, baunilha e açúcar. Valdisa começou a comercializar na festa desde sua primeira edição, e, a partir de então o produto tem se tornado uma das principais referências culturais características da região.

Raniei Moreira demorou seis meses para criar e aperfeiçoar o bode burguer

Ranieri Moreira demorou seis meses para criar e aperfeiçoar o Bode Burguer.

Outro produto, é a carne de bode que pode ser encontrada sem maiores dificuldades em muitos restaurantes que oferecem comida regional em seu cardápio no estado do Paraíba. Muito embora haja, de fato, esta facilidade em consumi-la, a cidade de Cabaceiras, possui algumas peculiaridades que atraem o público, para a chamada culinária bodística. Entre outros pratos comercializados na festa, estão a bodeoca e o bode burguer. Este último, como uma novidade a parte, tem a sua vez de estreia na Festa do Bode Rei com notável aceitação pelo público. Um de seus idealizadores, Ranieri Moreira, comenta que “o produto na verdade, partiu da demanda. E depois de seis meses de pesquisa, pra poder desenvolver a carne, uma vez que ela tem um odor e um gosto muito forte, nós viemos pra este evento que está ligado, por assim dizer, à culinária bodística.”. Apesar de ter sido a primeira vez do Bode Burguer na cidade, com relação a aceitação, “tudo está perfeito” e as vendas nos últimos três dias “estão ótimas”, reitera Ranieri que se diz muito satisfeito com sua participação.

Apesar das novas receitas fazerem muito sucesso entre o público em geral, os tradicionais pratos feitos com a carne de bode ainda são os maiores sucessos da culinária durante o evento. Tanto os residentes quanto os turistas enfatizam a importância de se manter este aspecto cultural vivo dentro das tradições regionais. Dinara Martins, turista de Santa Rita-PB, conta entusiasmada, “vim pra festa e já comi o bode. Bode guisado, bode assado e a buchada, não tem igual…Tudo do bode é bom!”. E como não podia faltar, “provei o Xixi de Cabrita e é uma delícia!”, Dinara ainda comenta que achou tudo maravilhoso e pretende vir novamente para as próximas edições, “Cabaceiras é jóia!”.

Da cultura do bode ao artesanato local

A cultura do artesanato é centenária na cidade de Cabaceiras e, é por isso, que ao chegar à Festa do Bode Rei, a primeira parada é a Praça do Artesanato onde é possível encontrar características da cultura cabaceirense, como a Arteza – uma cooperativa de artesãos que vem crescendo junto com a festa. José Carlos de Castro, diretor-presidente, explicou “O trabalho todo é feito pela Arteza, 70% couro de cabra e 30% couro de boi, daí o processo de conserva e o curtimento da peça. Então fazemos a confecção desses produtos.” Segundo ele, tudo é feito na própria comunidade, distrito de Ribeira, e todo o processo é feito manualmente. “A gente nasceu lado a lado com a festa, há 19 anos atrás. Esse trabalho vem sendo desenvolvido aqui na cidade e em outros centros não só da Paraíba, mas de todo nordeste, do Brasil. Já estamos sendo reconhecidos em todo o país.”.

Ainda na Praça do Artesanato, encontramos O Sebo Cultural que através do Sebo móvel estava inaugurando a sua primeira ida ao interior da Paraíba, na Festa Bode Rei. O presidente do sebo, Eriberto Coelho, diz entusiasmado “quem quiser saber mais do projeto pode ver nosso site osebocultural.com.br e estaremos percorrendo outras cidades no interior da Paraíba em outros eventos, mas a Festa Bode Rei será com certeza uma vinda anual.”

Andando pelos arredores da festa é impossível não notar o Comercial Nilo que, há mais de dez anos, contribui para a cultura do artesanato local com a venda de ferragens e mangaio. José Nilo, dono do comércio, comenta, “a gente sempre vende e num período de festa como esse é que vende mais, porque vem muita gente de fora, turista, aí tem muita coisa que eles admiram, acham bonito e até compram.” Segundo ele, os produtos do seu comércio, geralmente, só são encontrados mais no interior, “é uma coisa que pouca gente vende, tá em extinção realmente. Alguns produtos sou eu mesmo quem confecciono”.

Inácio Tranquilino competindo no pega bode

Inácio Tranquilino competindo no pega bode.

O campeonato de ordenha é uma das atrações que preenchem as atividades no Parque de Exposições da cidade. Um personagem que está presente há mais de dez anos nesse cenário é o paraibano Inácio Tranquilino. Ao longo de todos esses anos ele confessa que, “já ganhei de buchada, da velha do burro, mas nunca ganhei essa de ordenha, aí desisti.”. A tradição em sua família tem passado de geração a geração, com filhos, primos e sobrinhos que também são atraídos por este costume. Depois de tantas tentativas, ele revela, “hoje eu vim só pela folia dos cabras e por diversão.”. Outra modalidade que atrai os visitantes e que Inácio não deixa de participar é o chamado pega-bode, que ocorre no alto do cruzeiro. Basicamente, os competidores têm como objetivo final capturar o bode no menor tempo possível, o bode é solto minutos antes da partida, valendo salientar que a vegetação rasteira e espinhosa serve como um obstáculo natural para os participantes que se desdobram para pegar com destreza o animal.

Economia local e a Festa do Bode Rei

A região de Cabaceiras no período da Festa do Bode Rei recebe grande número de visitantes responsáveis por movimentarem a economia local significativamente. O ramo da hotelaria da cidade se equipa bem para comportar toda essa demanda, ela dispõe de trezentos leitos, tanto em pousadas quanto em hoteis, e com 15 dias antes da festa todos eles já estavam reservados. Geralmente a cidade se depara com turistas vindos dos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, Goiás e de todo o Brasil. Além da alternativa tradicional de hospedagem, o departamento de turismo possui um cadastro das pessoas cabeceirenses que queiram alugar suas casas no período da festa para grupos que pretendem se hospedar na cidade e que prefiram uma hospedagem diferenciada. Quando os hotéis da cidade sede estão cheios, os visitantes têm a opção de hospedagem nos municípios vizinhos que são parceiros da festa, como Boqueirão, Boa Vista e Queimadas.

Com relação ao público, Mariana Castro, diretora do departamento de turismo e comunicação social da cidade, avalia que a  Festa Bode Rei sempre atinge um público grande e as expectativas, ano a ano, crescem juntamente com a festa. “Esse ano, na 19ª edição da Festa do Bode Rei nós temos um público elevado, principalmente no domingo que é o auge da festa, porque tem o arraial, o pé de serra, a vila do artesanato. É como se nós estivéssemos mostrando Cabaceiras para o mundo e o que de maior nós temos.”. Para Mariana, o objetivo da festa foi cumprido, “todo mundo tá chegando pra gente parabenizando pela decoração e dizendo que tá tudo muito bonito. E toda a equipe se esforçou pra isso, é uma equipe gigantesca e foram meses de trabalho e estudo.”.

Casal se diverte no arraial dos oito baixos

Público se diverte no arraial Liu dos oito baixos.

Além da hotelaria, a culinária e o artesanato também são áreas de grande representatividade na economia local. Um dos criadores do “Bode Burguer”, Ranieri Moreira, comenta sobre a expectativa quanto ao rendimento final, “a gente veio preparado para um mega evento, para 50 mil pessoas, eu achei até que foi pouca gente, mas com relação ao movimento numa média desses últimos três dias as vendas estão ótimas.”. O visitante, Dennis Ferreira, revela ser forrozeiro e confessa, “o evento é uma maravilha, é totalmente cultural, algo que realmente valoriza a região.”

 

Confira um pouco mais na nossa vídeo reportagem.

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