Repórter: Samya Amado
Fotógrafa: Marília Duarte
Editora: Gabryele Martins

A tradicional noite de véspera de São João é o momento em que o povo nordestino se reúne para fortalecer os laços familiares, seja ao redor de uma fogueira ou juntando amigos e vizinhos em uma celebração única, com comidas de milho, bebidas tradicionais e o desejo de que essa memória nunca se apague.
Marco Junior, músico campinense, relembrou suas memórias com os seus avós: “Eu e os meus primos íamos pra Coremas (PB) e a minha avó mandava fazer uma roupa pra gente se arrumar pro dia de São João; o meu avô fazia fogueira, tinham os fogos e a sementinha foi plantada.”, comentou.
N‘O Maior São João do Mundo, em Campina Grande, a noite é marcada pela queima de fogos, enquanto Elba Ramalho entoa o hino “Olha Pro Céu”, do mestre Luiz Gonzaga. Pessoas do mundo inteiro se encontram no Parque do Povo para celebrar o Santo Padroeiro, em uma festa marcada por muito forró e valorização da Cultura Popular.
Elba Ramalho nasceu em Conceição (PB) e não é apenas cantora, atriz ou multi-instrumentista. A sua vivência ultrapassou a Rainha da Borborema e a Capital do estado, onde pôde beber de diversas fontes da Cultura Nordestina. Da atuação em “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto aos “Corais Falados Manuel Bandeira e Cecília Meireles”, a multiartista teceu com muitas mãos uma colcha cultural que, embora tenha tantas referências, é singular por onde quer que a sua arte chegue.

A artista, que carrega o nome da Paraíba mundo afora, externa o sentimento de poder representar o seu povo de forma tão singular: “É uma responsabilidade e como toda responsabilidade a gente procura fazer, cumprir o compromisso, cumprir a agenda. […] Quando eu chego em Campina Grande o frenesi é diferente: é a minha terra! As minhas referências artístico-culturais são daqui; meu primeiro palco, aos 14 anos, foi aqui! […] É a cidade que se expressa nessa festa com mais força. […]”, disse.
Cada fã carrega um sentimento único e com Marco não foi diferente: “O show de Elba no São João, para mim, tá associado à minha liberdade como ser humano. Foi em uma véspera de São João que eu saí de casa pela primeira vez, que eu falei para a minha mãe: ‘estou indo para o Parque do Povo com os meus amigos’ e eu associei isso à minha liberdade.”, disse.
O músico pontuou ainda que além de celebrar a sua cultura, voltar a esse lugar faz com que o pacto com a sua liberdade seja renovado. “Eu amo o São João, amo a festa da gente, porque ela é uma coisa que é muito democrática, é de fácil acesso. Torço muito para que os encontros sejam favoráveis e possíveis, e peço sempre à Deus para que eu possa estar sempre em Campina Grande na véspera de São João pra viver essa emoção todo ano.”, finalizou.

“Eu sou uma grande defensora da nossa cultura popular. Eu acho que isso é uma coisa preciosa! […] O povo daqui tem que saber e ter orgulho de carregar essa música regional, porque quanto mais regional, mais universal se torna.” – Elba Ramalho
O MELHOR E MAIOR DO MUNDO
Como dizem popularmente “O Parque do Povo é igual ao coração de mãe: sempre cabe mais um.”. O espaço, que tem vários palcos, bares, restaurantes e stands com brincadeiras e brindes, está sempre de braços abertos para receber todos que amam um bom forró e desejam experienciar 33 dias de festa, em uma programação diversificada e que ultrapassa Campina Grande, seguindo para os seus distritos, sendo plural e democrática, como o São João deve ser.
Estevão Felix, campinense que reside em São Paulo (SP) veio assistir ao show do seu tio, o cantor Amazan e aproveitou para se reconectar ainda mais com a sua cultura: “Eu amo a noite de São João! Eu não poderia passar em outro lugar que não fosse n’O Maior São João do Mundo.”, afirmou.
A turista Fernandina Carvalho, veio de Senhor do Bonfim (BA) para conhecer a tradição paraibana: “Eu nunca perdi uma festa de Senhor do Bonfim, mas queria muito conhecer o São João daqui e de Caruaru. Para mim, são os 3 melhores do Brasil: Bahia, Paraíba e Pernambuco.”, disse.

André Felipe veio de Pernambuco e explicou o motivo pelo qual escolheu a festa em Campina Grande: “Aqui tem mais opções na programação, enquanto em Recife é mais restrito. Eu já tinha vindo no ano passado para conhecer e resolvi voltar. A diversidade de coisas acontecendo simultaneamente chamam a minha atenção. Você pode aproveitar várias coisas. Quer um rolê tranquilo? Tem também.”, pontuou.
Se engana quem acha que a tradição junina é apenas uma fogueira no interior, Glaucia de Oliveira é campinense e há mais de dez anos tem um ritual com a sua família: “A gente é daqui e já é tradição da nossa família vir na véspera de São João para o Parque do Povo. O que mais gostamos é de dançar um forró, ir pras barracas e ganhar os brindes.”, comentou animada. Isabeli Vieira, que não conhecia a festa paraibana, veio de Pernambuco para aproveitar a noite de São João em Campina Grande: “É o melhor do mundo! Eu troquei Caruaru, Arcoverde, Petrolina pra vir pra cá.”, comentou a turista.
Apesar do clima de festa que ultrapassa os 33 dias, o acolhimento do povo paraibano e a alegria que é típica de quem ama o São João, faz com que o turista se sinta em casa, em uma grande família, como expressou a turista Hana Daniele, paulistana que chegou recentemente à Paraíba: “Como eu sou de São Paulo, é tudo muito diferente, o ritmo é muito frenético, então aqui eu tô mais tranquila. Eu tô achando lindo, a galera é unida e eu vejo todo mundo feliz.”, disse ela.
EU SÓ QUERO UM XODÓ
A noite da véspera de São João não serve apenas como uma reconexão dos laços familiares para quem é nordestino, mas a chama da fogueira aquece vários corações apaixonados, que veem na festa um motivo para celebrar o amor e pedir aos Padroeiros que zelem por esse sentimento todos os anos, como é o caso de Naína Carvalho e Wesley Cavalcante: “A gente tem a história de amor mais bonita do Parque do Povo! A gente se conheceu há 14 anos atrás, aqui, exatamente quando o palco era na parte de baixo.”, explicou Wesley.
Como canta Elba Ramalho durante a queima de fogos: “Foi numa noite igual a esta que tu me deste o coração. O céu estava assim em festa porque era noite de São João.”. Ele, que é campinense, não perdeu tempo na hora da conquista. Naína, que é baiana, teve o seu coração fisgado e o seu amor abençoado n’O Maior São João do Mundo: “Eu vim passar o São João e a partir disso eu mudei a minha vida! O São João é um marco na nossa história, porque depois disso a gente construiu uma sequência de fatos memoráveis, então é por isso que é tão importante passar essa data aqui.”, comentou ela.
Wesley explicou que a sua história de amor com o São João não parou por aí. O casal, que reside em Campina Grande, viu o seu amor frutificar e para completar ainda mais essa paixão junina, nasceu João Henrique, filho do casal que ganhou o nome em homenagem ao Santo Padroeiro dessa festa que encanta o mundo todo.

“Se tu quiser basta me dizer
Que eu irei correndo
É só me avisar que tu tá me querendo
E o mundo vai saber
O que é um grande amor…” – Xico Bizerra
O São João em Campina Grande se tornou palco para histórias de amor, de liberdade, resistência e um baluarte para a preservação da Cultura Popular Nordestina. Que os Padroeiros continuem fortalecendo o sentimento de pertencimento desse povo que não abre mão do xote, xaxado, baião, milho verde e da vontade de arrumar um xodó pra chamar de seu. Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!