Eu quero lhe convidar, para mostrar a festa de João. Não vai ser na casa dele, mas vai ter alegria e animação em todo lugar: é São João! Mês dos arraiais, das fogueiras, do forró e de gente bonita. As moças arrumam seus vestidos, usam fita colorida e fazem trança no cabelo e maquiagem. Os rapazes também não ficam de fora: pegam seu chapéu de palha, camisa quadriculada e uma calça remendada com panos coloridos. Tem marmanjo até fazendo “bigode” com lápis de olho das moças para mostrar respeito e que é um “cabra macho”!
Nessa festa, o que não falta é diversão: têm quadrilhas, pau-de-sebo, tiro ao alvo, barraca do beijo, fogueiras, balões e aquilo que não pode faltar em nenhuma festa de São João: as comidas típicas! Como fazer uma festa junina sem as delícias do milho, do queijo, da tapioca, da paçoca, da canjica, do bolo, do cuscuz, da pipoca e do pé-de-moleque? Não dá né? Sem esquecer-se da melhor pedida para toda festa de São João: a pamonha! Uma combinação perfeita com qualquer prato junino. Feita na hora, quem resiste? Aposto que você já ficou até com água na boca.
Uma família que se sustenta produzindo e vendendo pamonha
No mês de junho, se comemora a época da colheita do milho e muita gente aproveita para fazer as pamonhas e complementar a renda familiar com o dinheiro arrecadado dessas delícias juninas. É o caso de Dona Antônia, moradora do bairro da Liberdade em Campina Grande – PB. Dona Toinha como também é chamada carinhosamente pelos seus amigos, vende pamonha de dia à noite, com a ajuda de toda a sua família, sendo esta a renda fundamental para o seu sustento e de seus familiares. As pamonhas são vendidas nos valores entre R$ 3,00 e R$ 4,00.
Ela, seus filhos e netos participam de todo o processo de confecção da pamonha, descascando o milho, depois passando-os numa máquina de ralador elétrico de alto custo, na qual ajuda muito a família, pois rala, liquidifica, coa e refina, deixando a massa praticamente pronta para o preparo final que é o cozimento.Em torno de 1.500
espigas milhos são utilizadas por dia na cozinha de Dona Toinha, proporcionando dessa forma saborosas delícias para atender a uma clientela exigente.
De acordo com Dona Toinha, a mão de milho, com 50 espigas, está custando entre R$ 35 e R$ 40, cerca de 40% a mais do valor comercializado em 2014. O preço alto é justificado devido a seca na região, dessa forma os vendedores estão comprando as espigas vindas de Pernambuco, e não na Paraíba, fazendo com que o custo seja maior.
As lembranças e segredos de uma pamonheira experiente
Maria do Socorro, 51 anos, moradora da cidade de Juazeirinho – PB é outra cozinheira de “mão cheia” da iguaria junina. “Corrinha” como alguns chamam, aprendeu a fazer pamonha com sua mãe, e durante alguns anos de sua vida, essa foi a forma de sustento da familia.
Ela revela que o segredo para fazer uma boa pamonha é saber fazer a escolha do milho com cuidado. As melhores espigas são aquelas que têm casca de palha esverdeada e macia, e o milho não pode estar muito maduro, pois, segundo Corrinha, isso deixa o milho sem gosto.
Pode parecer brincadeira, mas ela diz que se inspirou numa reportagem na qual viu o cantor Zezé Di Camargo preparando uma pamonha. Ela disse que isso a motivou a fazer a comida junina com mais vontade, além de ser muito fã do cantor.
“Eu me lembro da minha mãe quando eu faço as pamonhas”, afirmou Maria. Na época, ela conta que ainda era católica, e que adorava ajudar sua mãe na cozinha. Hoje, ela guarda a lembrança dela no coração e nas fotografias que ficam pelas paredes da casa, levando sua mãe como exemplo em tudo que ela faz.
Dona Socorro parece ser a mais querida da vizinhança. Ela não se esquece de ninguém depois de ter preparado sua receita mais famosa. Esforçada, ela faz de tudo para que saia no capricho, colocando cada ingrediente e mexendo as panelas pacientemente, até que fique pronto.
E embora pareça ter muitos amigos, ela não deixa ninguém chegar perto de suas panelas. Oh mulher arretada! A cozinheira conta que não gosta que ninguém fique por perto atrapalhando enquanto ela faz as pamonhas. Ela gosta de fazer por conta própria. A única ajuda que ela precisa é a do marido para desbulhar e às vezes para ralar o milho. O resto é com ela.
E quanta dedicação. Além de fazer pamonhas, ela também desenvolveu a habilidade de costura, outro dom aprendido com sua mãe. Ela tem guardado alguns retalhos de tecido em sua casa, alguns ainda por finalizar com o crochê. Já vimos que ela é uma mulher que sabe se virar.
Dona de casa, ex-professora do Estado, hoje Dona Socorro sobrevive fazendo faxinas na casa de uma família, na cidade onde mora. Preocupada, ela conta que nem sempre dá para pagar todas as dívidas. Na maioria das vezes, ela recebe ajuda financeira do filho Alex, de 22 anos, que trabalha para uma empresa fornecedora de gás na cidade.
Orgulhosa, ela espera que o filho consiga brevemente estudar numa universidade, pois não pode pagar os estudos de Alex. Seu esposo, no momento, está desempregado, e encontra dificuldades para achar um emprego. Apesar disso, ela já se sente realizada pelo filho atencioso que ela tem, demonstrando ter um carinho especial por ele.
Mãe, dona de casa, cozinheira, faxineira, costureira, esposa, avó, e mulher. Dona Socorro é exemplo para os seus filhos e enquanto ser humano, com o sorriso no rosto, e expressões simples, ela demonstra que a vida é mais fácil quando colocamos uma pitadinha de vontade nela.
Aprenda a fazer a pamonha de Dona Socorro
Ingredientes
300 g de queijo de coalho
2 litros de leite de vaca
1 copo de óleo ou 300 g de nata
50 espigas de milho
Sal e açúcar a gosto
Passo a passo:
Passo 1: Rale o milho até mais ou menos o fim das espigas. Não rale até o sabugo, isso tira o sabor da pamonha.
Passo 2: Cozinhe as palhas em um caldeirão de água fervente e deixa-as até que fiquem com a coloração mais clara.
Passo 3: Enquanto as palhas fervem, coloque no liquidificador a massa da pamonha, rale o queijo coalho e despeje junto dos ingredientes restantes: leite, sal e açúcar a gostos.
Passo 4: Depois de batido todos os ingredientes, é hora de colocar a massa da pamonha nas palhas. Com cuidado, dobre-as, de modo que elas fiquem num formato parecido com um “envelope” e acrescente a massa, sem rechear demais a palha. Depois amarre com um cordão ou com corte de pedaços da palha em tirinhas.
Passo 5: Leve-as ao fogo médio por aproximadamente 2 horas.
Dicas
Dica 1: rale mais os milhos que estão mais maduros, os que estão muito verdes podem deixar um gosto ruim na pamonha.
Dica 2: amarre pedaços da própria palha do milho pata fazer os “atis” ou amarras. Eles ajudaram na hora de amarrar as pamonhas.
Dica 3: enquanto rala o milho bote a água para esquentar, você vai precisar dela bem quente quando for cozinhar as pamonhas
Dica 4: milhos também tem cabelos, tire-os.
Dica 5: ao colocar todas as pamonhas na panela, abafe com algumas cascas que sobraram do milho e faça e continue o cozimento.
O Segredo
Substituía a manteiga, usada tradicionalmente, por óleo, isso deixará a pamonha mais cremosa e saborosa.
Acompanhe o passo a passo do preparo das deliciosas pamonhas no vídeo abaixo:
Veja mais na nossa galeria:
- Filhos de Dona toinha. Foto: Fábio Ribeiro
- Filhos de Dona toinha. Foto: Fábio Ribeiro
- Filhos de Dona toinha – Foto- Fábio Ribeiro
- Filhos de Dona toinha. Foto: Fábio Ribeiro
- Dona Toinha preparando a pamonha
Equipe de Reportagem :
Produção : Ivo Emanuel
Repórter: Tayson Maytchael









