Final do 1º Encontro de Sanfoneiros e Tocadores de Fole de 8 Baixos da Paraíba

Campina Grande, 27 de maio de 2017  ·  Escrito por Inaldete Almeida, Max Marcel, José Ygor e Moniky Paolla.  ·  Editado por Diogo Lopes
CONCENTRAÇÃO DO PÚBLICO POUCO ANTES DO INÍCIO DO EVENTO

Concentração do público pouco antes do início do evento

O Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), localizado às margens do Açude Velho, em Campina Grande, foi palco  do encerramento do 1º Encontro de sanfoneiros e Tocadores de Foles de 8 Baixo da Paraíba, realizado na noite do último dia 26 pela Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba (PROCULT/UEPB). Os objetivos do evento eram resgatar, preservar e dar maior visibilidade à cultura popular nordestina. O projeto teve por finalidade fazer um mapeamento dos tocadores de sanfonas e foles de 8 baixo, que muitas vezes não conseguem espaço na mídia. Mais de cem artistas entre adultos e crianças, participaram das edições que ocorreram nas cidades de Araruna, Lagoa Seca, Patos, Monteiro, Catolé do Rocha, Guarabira, São Vicente do Seridó, João Pessoa e Itabaiana, com  encerramento em Campina Grande. Durante as edições, foram homenageados grandes ícones da música nordestina, Jackson do Pandeiro, Marinês, Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos e Severino Medeiros.

O Pró-Reitor de cultura da UEPB, professor José Cristovão de Andrade, fala como surgiu a proposta do evento e a aceitação por parte dos artistas e do público. “Muitos estudantes  de sanfona e fole de 8 baixos, se inscreveram no evento. Um bom exemplo é o de Ian Meira (26), que estuda fole de 8 baixos há cerca de um ano e faz parte do Trio Zé Lagoa. Ele conta que estudava rabeca, mas devido ao repertório daquele instrumento ser basicamente o mesmo do fole de 8 baixos,  sentiu interesse em estudar o instrumento.

Confira abaixo  a entrevista com o Pró- Reitor de Cultura da UEPB  José Cristovão

A apresentação do evento ficou por conta do ator Chico de Oliveira e do poeta e cordelista Lino Sapo. Inicialmente o evento foi marcado pelos grupos de dança: Dança de Salão da UEPB e Acauã da Serra, além das apresentações do grupo de balé contemporâneo da mesma instituição.

Severino Medeiros ao lado da nova geração

Severino Medeiros ao lado da nova geração

O grande homenageado da noite foi o sanfoneiro Severino Medeiros, de 74 anos. Sua história com a sanfona começou na infância, quando improvisou um instrumento com papelão e tocava em cima dos pés de manga. Ao perceber o interesse do filho sua mãe o presenteou com uma sanfona. “Aos 14 anos entrava escondido no cabaré,  para ver os sanfoneiros tocarem e aprendeu só de olhar ”, relembrou Dona Maria do Socorro, esposa de Severino.

Natural da cidade de Esperança, Severino mora em Campina Grande há 40 anos e recebeu o título de cidadão campinense em março deste ano. Ele tem mais de 70 músicas gravadas por diversos artistas consagrados como Amazan, Luizinho Calixto e Capilé. Tocou ao lado de Marinês, Dominguinhos, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, entre tantos outros.

Considerado um dos melhores sanfoneiros do Brasil, Severino Medeiros é arquivo vivo da cultura popular nordestina. Hoje, com sérios problemas de saúde, que o impedem de tocar, ele vê sua obra tendo continuidade através de sua descendência. De seus seis filhos, cinco são sanfoneiros. O único que não toca o instrumento mais comum na família, é especialista em zabumba e triângulo. Duas netas e uma nora também estão inseridas na música popular nordestina.

No evento, Luizinho, representante da família Calixto, também mostrou seu verdadeiro dom de músico e professor, ao tocar com seus alunos  e parceiros pela preservação da cultura popular nordestina. Ele ressaltou sua imensa alegria pela oportunidade que os sanfoneiros e tocadores de fole estavam tendo, e de sua satisfação ao apreciar a participação efetiva do povo. Privilegiado ao ganhar de Luiz Gonzaga, sua própria sanfona, Luiz é consciente da grande responsabilidade em carregar consigo a amizade e aprendizado com o rei do baião. Ele ainda tem bem presente em sua memória o primeiro encontro com o Gonzaga, aos 15 anos de idade:

“O meu irmão Zé Calixto era compadre de Luiz Gonzaga. Então, Zé aqui em Campina Grande, me levou e me apresentou ao seu Luiz, e meu nome de batismo é Luiz Gonzaga, então a coisa começou daí, quando Zé disse: olha, tá aqui meu irmão, o nome dele também é Luiz Gonzaga. Aí ele deu uma risada, uma risada prazerosa. E então perguntou se eu tocava, Zé disse que sim, daí me convidou pra ir tocar num show, junto com ele”, relembrou com entusiasmo.

Dona Olga conta com orgulho sua trajetória

Dona Olga conta com orgulho sua trajetória

O encontro foi marcado pela mistura de diferentes aspectos da cultura regional, no qual mestres e aprendizes puderam trocar experiências e vivenciar o forró com um público variado. A Universidade Federal da Paraíba também fez-se presente com  grupos de dança, coral e teatro abrilhantando ainda mais o evento. Olga Soares (63), uma das alunas, foi escolhida entre os 10 sanfoneiros participantes da edição. Ela bateu no peito dizendo se orgulhar em ser a única mulher da turma de Ritmos, com mais de 40 alunos: “Eu estou felicíssima. Aos 63 anos sou aluna de Ritmos da UFPB, numa turma de 42 homens, só eu de mulher, e até nisso tem uma diferença. Eu sempre digo que nunca  podemos perder essa vontade de aprender”.

Quem também prestigiou o evento foi o reitor da Universidade Estadual da Paraíba, Rangel Júnior. “O encontro foi um resultado impressionante não somente pela quantidade de pessoas que vieram assistir, mas pela quantidade de sanfoneiros que participaram, sabendo que o objetivo maior da realização do evento  é promover o instrumento (a sanfona) a um patamar de maior  dignidade cada dia mais dentro da nossa cultura, da nossa história…” afirmou o gestor.

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