
Marcos Antônio Braz dos Santos foi batizado com o nome de Antônio em devoção ao santo católico
Bendito trio: o que é?
Trata-se de uma série com três reportagens sobre os santos juninos: Antônio, João e Pedro. A ideia surgiu na disciplina Técnicas de Entrevista e Reportagem, ministrada pelo professor Jurani Clementino, e se inspirou no Especial “Ave Maria” desenvolvido pela repórter Fabiana Morais para o Jornal do Comércio em 2013. O que apresentamos aqui são as histórias de três personagens que fazem parte de trios de forró e que possuem nomes dos santos juninos. O texto procura estabelecer relação entre a história deles com as historias dos santos. Nossa primeira reportagem trata da história de Marcos Antônio Braz dos Santos, 44 anos, integrante do trio de forró “Mistura de Geração”.
Assinam essa primeira reportagem: Talita Ponte e Luana Lemos
Produção audiovisual: Marvin Santiago e Wesley Farias.
Produção: Rozy Albuquerque
Edição: Wilma Beatriz
Edição de Vídeo: Rodrigo Silva
Bendito Trio: Antônio
Foi no município de Esperança-PB que encontramos a família de seu João Amâncio dos Santos e dona Josefa Braz dos Santos. Eles são pais de Marcos Antônio Braz dos Santos e batizaram o filho com o nome de Antônio em devoção ao santo católico. Mas mal sabiam que a relação com o Santo, conhecido por seus milagres em enfermos, iria se estreitar com o passar dos anos.
Nascido na manhã de 05 de dezembro de 1974, Marcos Antônio, conhecido como Toinho, ainda bebê, fez uma íntima conexão com Santo Antônio. Esse elo foi estabelecido pelo seu pai, depois que o filho fora acometido por uma doença gastrointestinal, que na época, por falta de recursos médicos, não pôde ser tratada. Envolvido entre o sacro e o terreno, sua mãe, dona Josefa, passou a medicá-lo com ervas medicinais, receita indicada por um conhecido. Numa ação desesperada, o pai de Antônio, prometeu a Santo Antônio que se o filho fosse curado acenderia uma fogueira em sua homenagem, todo dia 12 de junho, véspera do dia do Santo Casamenteiro.
Como em um milagre, o menino melhorou da doença e então, o pai assumiu a missão de acender a fogueira todos os anos. Após sua morte, em 2001, coube ao próprio filho responsabilizar-se pela promessa. Antônio sempre foi religioso, cogitou inclusive a possibilidade de ser padre. Quando jovem, participava das missas e festividades da Igreja. Essa sua conexão com a religiosidade fez brotar nele a vontade de seguir o sacerdócio, mas a falta de recursos o levou a desistir. No entanto, apesar de claramente ser tímido, ele passou a servir à Igreja de outras formas, participando de pastorais, encenações bíblicas e o que mais gosta, juntando seu trio de forró e tocando nas quermesses das Igrejas.

O dom de Antônio para a música mostrou-se muito cedo
O dom de Antônio para a música mostrou-se muito cedo. Tudo começou na infância. Quando dona Josefa precisava sair, deixava os cinco filhos em casa na responsabilidade do filho mais velho, José Braz dos Santos, mais conhecido como Zezinho. Dentre as recomendações estava a de que, aqueles meninos não poderiam sair de casa. Então, aquela gurizada cheia de energia precisava encontrar algo para se divertir. Daí, tiveram a ideia de brincar, montando uma bandinha de forró, com a participação das irmãs. Usando talheres e cumbucas com pedras, tocavam sem parar. Antônio diz que se inspiravam em seus tios, que tocavam sanfona.
Embora seus pais fossem contra a formação do trio de forró, pois achavam que a carreira de músico era “muito arriscada”, eles insistiram e aquela brincadeira entre irmãos rendeu frutos. Conforme o tempo foi passando, as condições melhoram através da agricultura e pequenas apresentações que faziam com os instrumentos improvisados. Dessa forma, conquistaram os instrumentos oficiais. Toinho assumiu o posto de tocador de triângulo, no trio “Mistura de Geração” e afirma, com muito orgulho, que animam multidões e são muito queridos e solicitados pelo povo.
Sobre a possibilidade de participar de um show com um ídolo, Antônio relata que o maior sonho do trio é se apresentarem com o cantor de forró paraibano Flávio José. Mas lembra que já teve a oportunidade de estar com “Os Três do Nordeste” e que são muito comparados com eles, por sempre andarem padronizados. Vaidoso, Marcos Antônio diz que faz questão do trio estar sempre bem vestidos nas apresentações.

Devoção ao forró “Mistura de Geração” encanta com autenticidade ao ritmo nordestino
Dentre as maiores inspirações para o grupo, estão dois grandes nomes da cultura nordestina: Luiz Gonzaga e Dominguinhos. “A gente se inspira muito nas músicas de Dominguinhos, tocamos bastante, e por onde passamos as pessoas pedem que cantemos”, relata Antônio. Sobre Luiz Gonzaga, ele lembra que o trio quase ganhou um concurso no Salão do Artesanato em Campina grande. Para passar pelo teste, que garantia um troféu e apresentação do trio no Maior São João do Mundo, eles teriam que cantar três músicas de Luiz Gonzaga. Apesar de não ter vencido o concurso, eles foram chamados para tocar alguns dias no Parque do Povo.
Antônio, solteiro e forrozeiro, encarrega-se de animar vários casamentos com seus companheiros do trio, já perderam as contas de quantas festas animaram. Mas ao falar do seu próprio casamento, o tocador, diz que este ainda não aconteceu e que apesar do seu protetor (Santo Antônio) ser bastante procurado pelo assunto, ele nunca pediu uma ajudinha. Mas confessa que pode ser uma boa ideia, já que ainda está em tempo e quem sabe ele não manda uma forrozeira para dançar e cantar com ele por aí.
Por enquanto, cabe a Toinho, manter viva a chama de sua devoção acesa, todo dia 12 de junho, uma fogueira em homenagem ao santo junino. Promessa deixada pelo seu pai e que Antônio pretende repassar para alguém especial e de confiança. Enquanto esse dia não chega, Antônio segue com seus amigos tocando triângulo e animando as festas nos sítios e cidades paraibanas.
Santo Antônio
Santo Antônio ou Fernando de Bulhões, nome de nascença, nasceu em Lisboa, Portugal. Segundo as mais recentes investigações sobre a data do seu nascimento, teria nascido em 1192 (embora a data considerada até pouco tempo fosse 1195). De família nobre e rica, era filho único de Martinho de Bulhões, oficial do exército de Dom Afonso e de Tereza Taveira. Aos 19 anos entrou para o Mosteiro de São Vicente dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, contra a vontade de seu pai. Morou lá por 2 anos. Com uma grande biblioteca em mãos, Antônio avança na sua história pelo estudo e pela oração. Batizado com o nome de Fernando de Bulhões, o religioso adotou o nome Antônio, aos 25 anos, quando se tornou franciscano. O jovem admirava o estilo de vida simples dos integrantes da Ordem dos Franciscanos e desde então decidiu que noa seria mais o mesmo.
Santo Antônio é conhecido, fundamentalmente, como um santo popular. Morreu em Pádua, na Itália, em 13 de junho de 1231, com 36 anos. Por esse motivo, também é conhecido como Santo Antônio de Pádua. Afamado como o protetor das coisas perdidas, casamentos e pobres. É o Santo dos milagres. Fez muitos ainda em vida. Durante suas pregações nas praças e igrejas, muitos cegos, surdos, coxos e doentes ficavam curados. Sua memória é celebrada sempre no dia 13 de junho. Aqui no Nordeste os devotos do santo costumam acender fogueiras e pagar promessas nesse dia.
