Desafios, resistência e tradições no coração de Campina Grande
Reportagem: Mariana Santos e Jéssica Avelino
Fotografia: Lara Nathally e Jéssica Avelino
Editor: Emily Lima
Longe dos holofotes, estão as mãos que mantêm viva as tradições juninas em Campina Grande. É na Feira Central, no coração da cidade, que o São João começa muito antes da primeira fogueira ser acendida. Mais do que um centro comercial, a feira é a alma popular da festa: dela brotam histórias, sabores e raízes que sustentam a essência do Maior São João do Mundo.

Por trás do brilho das festas e da alegria que toma as ruas da cidade, a Feira Central pulsa como um espaço onde a cultura e o cotidiano se entrelaçam. É nela que os feirantes se dedicam diariamente para garantir que os costumes juninos permaneçam vivos, movimentando não só a economia local, mas também a memória afetiva da cidade.
Feirante há 30 anos, José Marcelino compreende a importância que a feira central tem para a festa junina na cidade. Para ele, a feira não é apenas um local de comércio, mas um ponto de encontro, onde turistas são recebidos de braços abertos. “É muita antiga a feira, é um dos ‘postal’ de Campina Grande. Aqui o turista é bem-vindo, ele aprende na feira e nos ajuda”, destaca. Marcelino reforça que a Feira Central é mais do que um espaço físico, é um símbolo vivo da cultura local, que fortalece laços e mantém viva a alma do São João em Campina Grande.

Enquanto o Parque do Povo vive o brilho e a animação do São João, na Feira tem gente que vive essa festa de um jeito diferente. Sandro, feirante desde sua infância, enfeita a sua banca com espigas de milho, celebrando o São João, porém ele relata sobre as dificuldades que vem enfrentando em suas vendas. O feirante conta que os tempos de boas vendas ficaram para trás. “Era ótimo, caiu demais, caiu muito aqui”, desabafa. O aumento no preço dos produtos também pesa no bolso de quem vive do comércio local. “Isso aqui (milho), no ano passado, era trinta reais a “mão“. Hoje é oitenta ou setenta reais. Tá um absurdo!”, reclama. Para Sandro, a feira continua sendo espaço de resistência cultural, mas os desafios do dia a dia têm deixado a festa com gosto amargo tanto para quem vende quanto para quem compra.

Em meio às dificuldades enfrentadas por muitos comerciantes da Feira Central, a chegada do São João ainda representa um alívio, mesmo que temporário, para quem batalha o ano inteiro atrás dos balcões. Josefa Antônia, feirante antiga e conhecida entre os corredores estreitos da feira, vê no período junino uma oportunidade de alavancar as suas vendas. “É muito bom, pelo menos tem uma estabilidade melhor, pra nós ganhar mais alguma coisa”, conta. Com a voz marcada pela vivência, ela revela os desafios da rotina fora da temporada: “Porque tem época que só Jesus sabe como é que a gente vive… passa aqui né?”. Na simplicidade de suas palavras, Josefa traduz o sentimento de quem transforma a feira em resistência diária, onde cada venda é também um ato de esperança e continuidade das raízes populares que alimentam o São João de Campina Grande.

Nos corredores da Feira Central, cada banca revela histórias que vão além da venda de produtos. São relatos de trabalhadores que sustentam, resistem e celebram uma tradição que é parte fundamental da identidade local. Apesar dos desafios enfrentados ao longo dos anos, eles seguem firmes, transformando a feira em um espaço de pertencimento e continuidade histórica.

