Com esculturas de santos, cordéis e fé esculpida em madeira, artesãos resgatam arte religiosa e atraem novos públicos em espaço dedicado ao artesanato em Campina Grande.
Repórter: Glória Borges
Fotografia: Ana Luz Rodrigues e Glória Borges
Edição: Jossandra Almeida

Entre imagens de santos e a presença de jovens dedicados, a fé se faz matéria no 40º Salão de Artesanato Paraibano que tem como tema “Macramê – A arte de arrochar o nó“. Instalado na Avenida Severino Bezerra Cabral, 780, em Campina Grande. O evento recebe centenas de visitantes diariamente, das 15h às 22h, até o dia 29 de junho, mas o que se faz presente mesmo não é só comércio: é devoção. Segundo informações do Governo da Paraíba, esse ano, o salão contará com cerca de 400 artesãos e pretende movimentar R$3 milhões. A entrada é gratuita, mas a organização pede a doação de 1kg de alimento como gesto solidário.
Nas bancadas e prateleiras, o jovem Igor Silva, 22, natural de Lagoa Seca, exibe suas esculturas estilizadas de santos. A proposta é clara: aproximar os jovens da religiosidade. “Eles veem uma forma diferente de enxergar a religião, uma forma diferente de enxergar os santos. E acabam buscando a fé através da arte”, reflete Igor.

Daniel, de apenas 19 anos, também de Lagoa Seca, encontrou no sagrado uma saída para os dias difíceis. Começou no ofício com apenas 15 anos. “Quando tô no meu momento complicado, eu vou produzir minha arte e me sinto melhor. É como uma oração moldada nas mãos”, conta o artista, que aprendeu tudo com o mestre Rogério, um artesão local mais experiente.

A arte sacra, muitas vezes marginalizada pelo mercado tradicional, também reencontra seu espaço sagrado entre os corredores do salão. Assis Freitas, 63, poeta e cordelista, enxerga na arte popular um chamado à memória coletiva. “Há uns 20 anos, o cordel e a xilogravura estavam esquecidos. Mas hoje, graças a espaços como esse, estão vivos. E encantam os turistas que nunca ouviram um verso rimado vindo da alma”, conta.

A conexão entre religiosidade e arte popular no Nordeste não é apenas estética, é também uma forma de resistência: ao esquecimento, à pressa, à globalização sem alma. O Salão do Artesanato torna-se, assim, não só um ponto turístico, mas um altar aberto à cultura nordestina. Um espaço onde a fé e a arte produzida pelas próprias mãos, palavras e devoção, ganham forma e voz.

