Sirano e Sirino: As noites de São João e resistência do fole de oito baixos no Maior São João do Mundo 

Campina Grande, 25 de junho de 2025

Repórter: Rafael Costa
Fotógrafo: Rafael Costa
Especial para Repórter Junino


A sanfona de oito baixos é um símbolo do forró pé-de-serra. Foto: Rafael Costa

Mês de junho é o mês em que o povo nordestino demonstra todo o seu amor à cultura local, mas também é um momento de conscientização por intermédio dos artistas que sobem no palco d’O Maior São João do Mundo.

Quando se fala em forró, tradição e cultura nordestina é comum no imaginário das pessoas três instrumentos: Triângulo, sanfona e zabumba. Juntos, esses instrumentos desempenham papéis cruciais em seus ritmos e estilos frequentemente associados ao forró e às festas juninas.

Porém há um consenso entre alguns sanfoneiros do país do quão preocupante vem sendo o processo de extinção dos sanfoneiros de oito baixos. A pouca visibilidade que lhe é dada, quando comparada à sanfona de cento e vinte baixos (modelo mais popularmente conhecido), se reflete no desconhecimento de sua existência, pela população em geral, e muito disso se dá pela ideia de que não há um método de ensino escrito para um instrumento considerado de difícil execução. 

Ponto que também foi descrito por Sirano, da dupla Sirano e Sirino, que se apresentou na última segunda-feira, véspera de São João, em Campina Grande.

“É como Luiz Gonzaga dizia, é o vovô do baião [o fole de oito baixos], é de onde praticamente tudo começou. Manter uma tradição dessa não é tão fácil porque é um instrumento difícil para tocar”, disse o cantor e compositor que aprendeu a tocar o instrumento ainda com 8 anos de idade.  

Desde sua chegada ao Brasil, trazido da Áustria, sabe-se da existência de nove modelos de afinação deste instrumento, sendo uma delas fruto da sua difusão no Nordeste do Brasil e tem como responsável pela sua popularidade Luiz Gonzaga do Nascimento ou simplesmente o Rei do Baião. 


O artista mostra a versatilidade da sanfona ainda para os dias atuais. Foto: Rafael Costa

Gonzagão e a sanfona

A sanfona de oito baixos que acompanhou Gonzaga em seus primeiros anos, antes da popularização do acordeão de 120 baixos, que se tornaria seu instrumento principal posteriormente, tornou ele um dos principais instrumentistas e compositores do mundo.

Gonzaga foi responsável pela difusão do instrumento ao qual ele deixou gravações utilizando a sanfona de oito baixos, como a música “Chorão”, de sua autoria, em um solo de 1956 e também da composição da música “Respeita Januário” em homenagem ao pai e ao instrumento, destacando a importância da sanfona de oito baixos e do respeito pela figura paterna.

De Januário a Luiz Gonzaga. De Gonzaga a “Arlindo dos oito baixos”, passando pelos irmãos Calixto e assim sucessivamente, a tradição desse formato de fole no modelo de afinação do Nordeste do Brasil traz consigo a marca da história das festas juninas como conhecemos atualmente. 

Apesar da preocupação com a extinção do instrumento, Sirano, demonstrou no palco que se depender dele o instrumento jamais passará apagado nas festas juninas, “É difícil tocar o instrumento mas eu vou manter ela viva”, disse o cantor. 

Essa paixão pelo instrumento e pela cultura nordestina vem de família,”Meu pai morava no interior e muito cedo ele levantava para fazer o café para ir para o roçado e ele já ligava o rádio e a gente já escutava Luiz Gonzaga e Zé Gonzaga”, disse orgulhosamente Sirino ao lado do irmão. 

Sirano dedicou uma parte de seu show ao instrumento. Os olhares atentos do público demonstravam interesse na performance do instrumentista que toca esse formato de fole no modelo de afinação à moda nordestina.

Assistir Sirano tocar o instrumento em um dos palcos mais importantes da cultura nordestina pode despertar o interesse de pessoas de todas as idades pela trajetória do artista, pelo instrumento e até mesmo por aprender a tocar, ter o fole de oito baixos nas noites de São João é dizer orgulhosamente: Vida longa aos oito baixos.

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