Campeão desta edição se despede da disputa e conquista seu quarto título na competição no Teatro Facisa, que esteve lotado

Reportagem: Kássia Queiroz
Fotografia: Emily Piano
Edição: Fernando Firmino
Na noite de ontem (08/11), o Teatro Facisa, em Campina Grande, sediou a 19ª edição do Desafio Estado contra Estado, competição que reúne repentistas de diversos estados do Nordeste. O evento, considerado uma celebração da cultura nordestina e da força da arte popular em forma de poesia, trouxe uma disputa justa e acirrada. O vencedor deste ano foi Ivanildo Vila Nova, de Pernambuco, que superou Jeferson Silva, do Piauí, na final.
Nesta edição, 12 dos maiores repentistas do país representaram cinco estados: Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Em duplas, os participantes se apresentaram no palco e improvisaram versos de repente diante do público, de idades e gerações distintas, formado por pessoas que todos os anos, viajam de diferentes regiões para prestigiar o evento. Uma banca avaliadora composta por seis jurados levou em conta critérios como métrica, rima, vocabulário, improviso e criatividade durante as rodadas da competição. A disputa este ano foi composta pelos repentistas: Antônio Lisboa (RN), Charles Gomes (CE), Raimundo Caetano (PB), Raulino Silva (RN), Jeferson Silva (PI), Rogério Meneses (PB), Edvaldo Zuzu (PE), Edvaldo Filho (PB), Felipe Pereira (RN), André Santos (PE), Luciano Leonel (PE) e Ivanildo Vila Nova (PE).


IVANILDO VILA NOVA SE DESPEDE DE FORMA TRIUNFAL
Campeão desta edição, Ivanildo Vila Nova, 80 anos, é reconhecido por sua extensa caminhada no universo da poesia popular e contribuição ao universo da cantoria. Ao se despedir da disputa como concorrente, ele reflete sobre o legado que construiu ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à cantoria em entrevista ao Repórter Junino. “O primeiro legado é deixar a profissão num nível muito alto, que não era esse quando eu comecei”, afirma o poeta. Ivanildo recorda que iniciou na arte ainda aos 12 anos, inspirado pelo pai, e destaca com orgulho as transformações que ajudou a consolidar no ofício. “Hoje, o cantador tem uma profissão rentável, respeitada e duradoura. É uma arte acolhida em todos os ambientes. Pode ser no Teatro Santa Rosa, em Nova Iorque, em Portugal ou na França. Onde o cantador vai, a cantoria é recebida com respeito”, diz.
Ainda em clima de despedida do “Estado contra Estado”, o mestre relembrou memórias marcantes da competição e a importância de competir com leveza e respeito. “Ganhar é sempre bom, mas é preciso saber perder. Já perdi festivais que achei que deveria ter vencido, e já ganhei outros que talvez não merecesse tanto. O importante é competir”, reflete. Mesmo decidindo encerrar sua trajetória como competidor até o fim do ano, Ivanildo garante que não deixará os palcos: “Pretendo continuar com apresentações especiais, outro tipo de cantar. Mas competir no nível de hoje, acho que não mais”, conclui. Iponax Vila Nova, poeta e idealizador do evento, não descartou a possibilidade de Ivanildo retornar ao Desafio no próximo ano em uma nova função, integrando o corpo de jurados.


NOVA GERAÇÃO DE REPENTISTAS
Enquanto mestres como Ivanildo encerram um ciclo, novos talentos começam a trilhar o próprio caminho. Edvaldo Filho, o mais jovem do elenco e um dos estreantes, representa essa nova geração de repentistas que dá continuidade à tradição da cantoria nordestina, tradição essa que, para veteranos como Rogério Meneses, segue tão viva e desafiadora quanto antes. O poeta afirma que o “Estado contra Estado” continua despertando nele a mesma emoção de quando começou a cantar e destaca a importância do evento como marco na história da cantoria, reunindo, ano após ano, nomes que carregam em verso a força cultural de seus estados. “Aqui eu não defendo só o meu nome, defendo a Paraíba. Cada cantador carrega o peso do seu Estado. É uma disputa que reúne história, cultura e um público fiel, que lota o teatro todos os anos”, declarou Rogério.
Vice-campeão da edição anterior, Felipe Pereira voltou ao palco do Teatro Facisa com a mesma entrega que marcou sua trajetória na competição. Para ele, cada edição é uma nova experiência, guiada pela inspiração e pela fé.O poeta comparou a emoção de participar do evento a disputar uma final de Copa do Mundo. “Cantar em Campina Grande é respirar poesia. A cidade tem uma história profunda com a cantoria, e o trabalho que o Iponax vem realizando mantém essa tradição viva e se expandindo para outros lugares”, completou.
Iponax Vila Nova também demonstrou confiança ao falar sobre o futuro da cantoria no Brasil. Segundo ele, a nova geração de poetas garante a continuidade dessa arte centenária. “O futuro está garantido. Quase metade dos doze cantadores que se apresentaram hoje representam a nova geração”, afirmou. E deixou um conselho aos jovens repentistas: “É importante ouvir os mais velhos, os mais experientes. Quem tem vivência tem mais bagagem e pode orientar. A cantoria se fortalece quando há troca entre as gerações.”
Em cada rima improvisada e em cada duelo de versos, o repente reafirma sua força ancestral. É a voz do povo nordestino reinventando o passado no presente, mantendo viva uma tradição que resiste, se renova e segue encantando plateias, assim como no palco do “Estado contra Estado”, onde mestres e novos talentos se encontram para celebrar a poesia feita de emoção e pertencimento.
Assista o desafio transmitido no canal oficial do evento
