A noite de São João é celebrada pelas principais cidades nordestina do país. Com o passar dos anos essa tradição tem sofrido perceptivelmente com a modernidade e acaba por se esvair das casas, deixando se apagar a chama de uma das celebrações mais importantes do calendário brasileiro. Contrapondo essa modernidade e procurando resistir ao novo, os distritos e cidades circunvizinhas de Campina Grande, terra do Maior São do Mundo, ainda procuram propagar a festa em homenagem ao santo padroeiro da amizade.

Rúbenes reúne a família todos os anos para celebrar a festa junina
O Nordeste inteiro se divide entre a tradição do forró pé-de-serra, que tem em Gonzagão a sua matriz estética, e a modernidade comercial recente, com o forró estilizado e seus lançamentos meteóricos de verão. Essa nova geração de artistas passam a sofrer fortes críticas ao modificar as matrizes que elevaram o forró ao cenário nacional da música. Esse é um dos questionamentos feito por Rúbenes Alves, que reside em São José da Mata e juntou toda a família para celebrar a noite mais importante do calendário nordestino. “Eu sinto falta do forró pé-de-serra e da tradição. Fui até um show ontem aqui e só tocaram forró de plástico”, enfatizou-o enquanto acendia sua fogueira às 18h da tarde.
É assim, entre amigos, familiares e crianças brincando ao redor da fogueira, soltando seus traques e balançando seus chuveirinhos que Rúbenes reúne a família todos os anos, pois, acredita que a essência da festa é essa. Ter os familiares por perto, para compartilhar histórias e mostrar para seus netos como é a celebração da festa no interior. Essa resistência, às modernidades do século XXI, se faz presente na propagação da tradição junina no distrito de São José da Mata, que conta com mais de 15 mil habitantes.
Peleja e tradição
Dois pra cá e dois pra lá: enquanto alguns encontram lucros na grande procura por espigas de milho, em outro ponto da cidade existe a baixa procura por fogos de artifício.
“Vem que tá barato!”
É esbravejando aos quatro ventos que nos últimos quatro dias José Eraldo, Zé do Milho, não pregou os olhos para dormir. A procura pelas mão de milho fez com que o agricultor se desdobrar-se para dar conta de grande demanda que o mês de junho reserva para os agricultores da região. “Faz quatro dias que eu não durmo. Trabalhando 24 horas por dia para dar conta”, disse Zé do Milho que recebe ajuda de sua família para conseguir atender a todo mundo que chega a procura do produto.

É da comercialização do milho que vem o sustento da família Zé do Milho
É da comercialização do milho, que é plantado pelo próprio Zé do Milho, que vem o sustento da sua família por praticamente o resto do ano, segundo ele. Zé conta ainda que chega a vender por dia mais de 100 mãos de milho, uma mão de milho contém em média 52 espigas, seja com palha ou sem palha, lucrando cerca de 25 mil reais no final do mês.
O produto comercializado na cidade também é a base do sustento de Dona Denise e Zé Galo que além de vender as espigas de milho também vendem o produto assado e cozido, uma forma de driblar a crise e arrecada um valor extra. O dia 23 de junho reserva para Dona Denise, que também trabalha como técnica de enfermagem, muitas lembranças. Foi nessa data que ela perdeu a sogra, a quem sempre a ajudava na ornamentação e organização da festa da família. “São joão pra mim perdeu um pouco o sentido desde que ela se foi”, lamenta enquanto atende um cliente e outro com olhos marejados e voz embargada.

Denise perdeu a sogra na noite de São João mas continua lutando para manter a tradição da festa
‘Seu’ Antônio, que é conhecido pelo distrito como Zé Galo, é vendedor de fogos de artifício e conta que esse ano as vendas não foram tão boas como em outros anos, “ Esse ano a procura está bem pouca, também, com a crise que tá o país, ninguém quer comprar.” Outro fator apontado pelo vendedor é o fato de que cada vez menos pessoas estão brincando o São João como em sua época. “Hoje em dia as crianças não querem mais brincar com chuveirinho, traque-traque igual no meu tempo.”, lamentou Zé do Galo que abre mão de curtir a festa com a família para trabalhar em seu estabelecimento.

Zé Galo é vendedor de fogos de artifício na cidade
Apesar da baixa procura em seus estabelecimento no momento da entrevista o cliente veio e comprou cerca de R$120,00 em fogos de artifício. Quando perguntado o motivo de ter gasto uma quantia tão grande, Gustavo Felinto mencionou que é para dar aos seus filhos a mesma experiência que ele teve quando tinha a idade dele. “Eu sempre mostrei para aos meus filhos como é a tradição dos festejos juninos daqui e não gostaria que isso se perdesse em minha família pois é muito importante mantermos viva a tradição”, diz Gustavo que reside em João Pessoa mas sempre vem a cidade para festejar o São João, pois por lá não há esse costume.
A resistência dessa tradição ainda se faz presente nos bairros dos distritos e cidades circunvizinhas de Campina Grande. Com intuito preservar e documentar essa tradição os moradores do distrito de São José da Mata acende ainda mais a chama que dá boas vindas a São João.
