Sob a garoa suave, o Parque do Povo se ritmou ao som da sanfona e do triângulo, misturando tradição junina e novos ritmos
Repórter: Diney de Melo
Fotografia: Marcele Saraiva

Na noite de sábado, 14, a Serra da Borborema despejou uma garoa miúda que bordou o céu de prata, mas foi incapaz de apagar o lume do São João campinense. A chuva e o frio não esfriou o coração de quem buscava o forró raiz. O Parque do Povo amanheceu úmido e adormeceu ardendo em forró: um poema de passos, cores e cheiros.
Ao chegar, entrei pela lateral do Quadrilhódromo, onde as Flores Bela, de Santa Rita, rodopiava vestida de cetim; cada giro deixava no ar um perfume como das belas rainhas antigas. A Junina IESA, com suas crianças, trazia ao publico a história do cangaço e com os pés do xaxado levantava a poeira. A junina Serra Branca fechou a sequência, rodopiando vestida de tradição, lembrando a todos que o arrasta pé nunca sai de moda.

Segui em direção às ilhas de forró — Seu Vavá, Zé Lagoa, Zé Bezerra — onde o triângulo tilinta como se fosse orvalho sonoro. Vi casais encharcados de suor numa noite fria, girando num abraço que desafia o termômetro. Vi também dançarinos solitários, rendidos ao chamado da zabumba, fazendo par com as próprias sombras. Entre um passinho e outro, o cheiro de milho‑cozido escapava das barracas e se misturava ao vapor de canjica, criando um caldo invisível que aquecia mais que qualquer casaco.
Quando passei pelo Palco Cultural, fui imediatamente tomado pela força das vozes de Flavinha Rocha e depois por Alex Silva. Cada nota de forró romântico que ali cantavam parecia vibrar no corpo dos casais que se formavam aos seus pés, rendidos ao abraço e ao compasso. Mesmo enquanto o pulsar eletrônico de Alok invadia o Parque, arrastando multidões em busca do drop perfeito, ali, naquele recanto feito de acordeões e corações apaixonados, ninguém largou a dança a dois. Vi pares coladinhos sob a luz branda do palco, como se aquele instante fosse uma declaração de amor à tradição. Foi ali que entendi, mais uma vez, que o São João se reinventa a cada batida, mas só se mantém vivo enquanto houver casais embalados pelo forró.

Do Palco Principal pouco precisei registrar — já foi contado em outra matéria sobre Ranniery Gomes, Barões da Pisadinha, Alok e Joelma (Confira aqui). Mas bastava o eco das batidas eletrônicas chegar até mim para perceber a contradição mais bela da festa: o São João abre a porta a todos os ritmos, mas sua espinha dorsal segue feita de sanfona, triângulo e zabumba. Mesmo quem atravessava o mar de gente em busca do drop do DJ acabava se rendendo, vez ou outra, ao chamado ancestral do xote ou do arrasta‑pé.
Entre coretos, pirâmide e o vaivém, o Parque do Povo pulsa de dentro para fora. Cada pingo que cai do céu é nota musical; cada sorriso embaixo de guarda‑chuva é verso de cordel. O frio já não assusta, vira desculpa para dançar mais colado, para esquentar as mãos no copo de licor ou simplesmente para sentir o coração bater forte dentro do peito, como zabumba de romaria.

É bonito ver a festa se reinventar: eletrônica, arrocha e calipso, tudo cabe nessa sanfona gigante chamada Campina Grande. Mas o verdadeiro coração do São João continua batendo no compasso do forró. Quando a sanfona suspira, não importa o gênero que ecoa ao lado; todos os caminhos convergem para a mesma fogueira simbólica. Que venham os novos ritmos, mas que nunca falte o trio pé‑de‑serra que é guardião da memória e da chama que mantém acesa a alma nordestina. É na cadência ancestral do forró que reside a magia junina.
