Com 13 anos de história, a quadrilha Mamãe Sacode, formada apenas por mulheres, transforma o Sítio Félix Amaro em um espaço de cultura, tradição e resistência.
Reportagem: Jéssica Avelino
Fotografia: Jéssica Avelino
Editor: Fernando Firmino

No Sítio Felix Amaro, Zona Rural de Campina Grande, um São João cheio de memória, identidade e protagonismo feminino acontece longe dos grandes palcos do Parque do Povo. É o Arraiá no Sítio, organizado desde 2013 pela quadrilha Mamãe Sacode, formada exclusivamente por mulheres da comunidade, que realiza apresentações, organiza festas e mantém viva a tradição junina no local.
A quadrilha surgiu a partir de uma iniciativa do Clube de Mães, há 13 anos, como uma forma de brincadeira, mulheres dançando com outras mulheres caracterizadas de homens. A organizadora da Quadrilha, Damyres Santos, engajou desde o início devido à influência de sua mãe, Elizete Santos, uma das matriarcas dessa quadrilha. “A Mamãe Sacode é minha vida! Tudo que eu faço em prol da quadrilha eu amo demais. Quando eu vejo a minha mãe dançando mesmo cansada e com os afazeres do dia a dia, eu acho bonito, tão lindo de ver”, afirma Damyres com entusiasmo.
Apesar do amor e da dedicação, Damyres não esconde os desafios enfrentados para manter a quadrilha viva ano após ano. Sem apoio financeiro fixo, tudo é feito com o que a comunidade e as componentes podem oferecer. “Tem muitos gastos, fazemos rifas e as componentes arcam também, mas graças a Deus estamos tendo alguns patrocínios dos próprios empreendedores da comunidade. Então, estamos ajudando um ao outro”. Mesmo com as limitações financeiras, o grupo resiste graças ao esforço coletivo e ao compromisso das próprias integrantes, que fazem da quadrilha uma tradição sustentada pela própria comunidade.
O grupo também chama atenção pela diversidade de idades entre as integrantes. A pluralidade de idades entre as participantes é um dos traços marcantes da Mamãe Sacode. Entre as dançarinas, é possível ver mulheres idosas, adultas, jovens e às vezes crianças, todas compartilhando o mesmo chão de terra e o mesmo compasso junino. Algumas são mães e filhas que dividem o mesmo espaço na dança. “A diferença de idades é ótimo porque vai passando de geração em geração. Começa da avó, passa pra filha, depois já passa para as netas”, conta Damyres. A Mamãe Sacode se transformou, ao longo dos anos, em uma tradição de família, em que a transmissão de saberes juninos acontece de geração para geração, consolidando um São João vivo, afetivo e inteiramente feminino.

Além do aspecto cultural, o Arraiá no Sítio organizado pela Mamãe Sacode impulsiona a economia local. Durante o evento, alguns comerciantes montam barracas visando gerar uma renda extra. Lucileide Avelino, vendedora de comidas típicas presente no arraiá há mais de três anos consecutivos, destaca a importância da festa para seu negócio: “O evento serve pra gente conseguir tirar um trocadinho e a partir do convite consigo vender as comidas típicas que faço, como: maçã do amor e espetinhos de uva”, diz a micro empreendedora. Essa movimentação comercial evidencia o Arraiá no sítio tanto como manifestação cultural quanto como uma fonte de renda extra para os comerciantes da comunidade.

O evento não reúne apenas moradores da comunidade, mas também quem carrega o lugar no coração, mesmo morando longe. Entre os frequentadores fiéis está Nilson Avelino, que vive em São Paulo, Guarujá, mas nunca deixou de se conectar com suas origens. Apesar da distância, mantém uma conexão forte com suas raízes e retorna quase todos os anos para acompanhar o Arraiá no Sítio, em especial, a quadrilha Mamãe Sacode. “Praticamente desde o início acompanho essas mulheres. Admiro muito a força delas, que, mesmo com as dificuldades, conseguem se organizar e manter viva essa tradição”, relata Nilson. Para ele, a quadrilha representa tradição e força das mulheres.
Com 13 anos de história, a Mamãe S acode se firmou como um símbolo de resistência cultural na zona rural de Campina Grande. Mais do que uma quadrilha junina, o grupo representa a força das mulheres que, ano após ano, enfrentam desafios para manter viva a tradição. São elas que ensaiam, costuram figurinos, organizam o Arraiá e transformam o terreiro em palco de celebração popular. A cada apresentação, carregam consigo a memória de quem veio antes e a missão de inspirar quem ainda virá. Em um cenário onde o protagonismo feminino muitas vezes é invisibilizado, a quadrilha mostra que a festa só acontece porque elas fazem acontecer.


