Na véspera do Dia de São João, o Parque do Povo recebeu shows de Diego Facó, Guilherme Dantas, Elba Ramalho e da dupla Sirano e Sirino e ainda teve espaço para um chá revelação no palco principal.
Repórter: Jossandra Almeida
Fotografia: Ana Luz Rodrigues
Editor: Fernando Firmino

Era segunda-feira (23), mas a cidade trazia a animação típica de fim de semana. O Maior São João do Mundo alcança seu auge. São 38 dias de celebração, e é nesse momento, na reta final, que tudo se intensifica: o público cresce, o ritmo acelera e a energia se espalha por cada canto do Parque do Povo. No Evaldo Cruz, circulam visitantes de primeira viagem, campinenses festeiros de longa data e vendedores que aproveitam o período para impulsionar a renda. Em cada trecho, há um som próprio: as chamadas ilhas do forró dão espaço aos artistas locais, onde a força da música chama mais atenção do que o nome de quem canta. Os restaurantes têm filas e mesas cheias, e a pirâmide mantém sua festa paralela, como de costume.
Ainda assim, algo chama a atenção: no início da noite, a movimentação perto do palco principal era mais tímida do que o habitual, gerando um leve estranhamento, que logo desaparece. À medida que o relógio avança e o nome de Elba Ramalho se aproxima do horário marcado, a multidão começa a ocupar os arredores com expectativa no olhar. Era visível, o público queria mais que um show: ansiava ouvir uma voz que faz parte da história do forró e da própria memória afetiva dos festejos juninos.
Mas quem abriu a noite no palco principal foi Diego Facó. Com um repertório animado, ele deu início à sequência de shows e ajudou a aquecer o público que começava a se concentrar diante do palco. Ainda com circulação mais espaçada, os primeiros passos de forró já se ensaiavam entre casais e grupos de amigos.
No intervalo entre os shows, a noite ganhou uma atração diferente: Giselle Christine e Jefferson Queiroz, casal carioca apaixonado pelo São João, que escolheu Campina Grande como lar há cinco anos, subiram ao palco principal para revelar o sexo do primeiro filho. Aos 38 anos, depois de enfrentar e vencer um câncer, Giselle agora vive uma nova fase: está grávida de seis meses. Diante da multidão, anunciaram que esperam um menino, João Benício, e ganharam na festa um novo significado.

Na sequência, foi a vez de Guilherme Dantas subir ao palco. Cantor, compositor e instrumentista, ele tem deficiência visual desde o nascimento, algo que nunca o impediu de trilhar, com sensibilidade e talento, o caminho da música. Aos quatro anos, aprendeu a tocar teclado de ouvido e, desde então, mergulhou na música com naturalidade e paixão. Ele é autor de sucessos como “Deixa eu te superar” e “Beijo Foda”, que ganharam o Brasil na voz de Tarcísio do Acordeon. “É uma superação estar num palco grandioso como esse… Campina Grande faz um bom trabalho nesse ponto e eu acho que estou plantando a semente para que outros artistas [com deficiência] possam subir neste palco também”, afirmou Guilherme.
O céu de Campina Grande virou palco antes mesmo de qualquer acorde soar. Aos poucos, luzes dançantes tomaram conta da noite: cerca de 200 drones riscaram o escuro, e ao final do espetáculo, o nome de Elba Ramalho brilhou sobre o Parque do Povo. Era a senha silenciosa de que ela estava prestes a chegar.

Quando os telões passaram a acompanhar sua caminhada até o palco, Elba surgiu vestida com um traje brilhoso de chita e uma bota cor de ouro, transmitindo carisma e vitalidade, apesar de ter revelado que acordou sem voz naquela manhã. Aos 73 anos, mostrou por que é considerada uma das maiores artistas do forró e da música nordestina, conduzindo uma banda completa de cordas, metais, sopros e dançarinos de quadrilha.
O show teve a energia que só ela sabe entregar. Em meio a clássicos que atravessam gerações, vieram também homenagens a nomes que marcaram o forró, Luiz Gonzaga, Flávio José, Eliane e Dorgival Dantas. Entre um acorde e outro, o palco se abriu para a participação de Luã Ivys, filho de Elba, que dividiu com ela mais do que uma canção, dividiu história. Campinense de nascimento, chegou ao mundo em 25 de junho de 1987, logo após um show da mãe com Luiz Gonzaga na inauguração do Spazzio, em Campina Grande. Uma lembrança que ambos compartilharam com ternura, como quem devolve à cidade um capítulo da própria vida.

Quando o relógio marcou meia-noite, os primeiros fogos riscaram o céu ao som de “Olha pro céu”, marcando oficialmente a chegada do Dia de São João. Ainda sob os brilhos da queima de fogos, Elba puxou outros clássicos, encerrando a noite com emoção à flor da pele e deixando no ar aquele sentimento que só os grandes espetáculos provocam: o de querer mais. Com essa energia, a dupla Sirano e Sirino assumiu o palco, trazendo seu forró tradicional e romântico para fechar as apresentações de uma das noites mais marcantes desta edição. E assim, a festa foi se despedindo aos poucos, como quem já sente saudade do que ainda nem acabou.
