Todas as referências de grandes festas trazem também as contradições. No São João de Campina Grande não poderia ser diferente. “Aqui no Parque do Povo todo mundo sabe qual o seu lugar: quem é da ‘Pirâmide’ não vai para a parte superior e vice-versa”. Essa foi a primeira frase que ouvimos ao conhecer o lugar onde acontece o maior São João do mundo. 
A parte superior da festa, onde fica os bares mais requintados, é frequentada pela elite campinense, enquanto que a ‘Pirâmide’ – como é chamada a parte inferior – é conhecida por reunir o contingente popular da cidade.
A estudante Débora Camila diz que nunca passa pela ‘Pirâmide’ porque acredita que é onde está o perigo da festa. “As brigas acontecem lá. É o lugar do ‘risca faca’”. Andréa Ferreira, assídua frequentadora do Parque, conta que não vai à ‘Pirâmide’ “nem que receba algum tipo de pagamento”. Ela diz que a violência na parte inferior é visível e se sente mais segura próxima às barracas sofisticadas. Já Adriana Teixeira prefere a parte superior por ser mais tranquila. “Lá embaixo é muito tumultuado”.
Do lado de quem discorda de toda a má fama que a colorida ‘Pirâmide’ possui, está Elen Mendes, moradora de Queimadas, cidade vizinha de Campina Grande. “Existe uma diferença e só. Aqui não é violento e sim muito animado”, afirma a jovem. A vendedora de churrasquinho, Sila Diniz, se junta ao coro, mas reconhece que a parte superior é frequentada por quem tem maior poder aquisitivo. “A ‘Pirâmide’ não é perigosa, aqui tem lugar para todo mundo”, completa.
De acordo com Bruno Daniel, policial militar da Paraíba, a pirâmide é onde está a classe mais baixa, mas não necessariamente a mais violenta. “Ali ficam os chamados ‘bebuns’: eles só querem beber, se divertir e dançar.” O cabo Monteiro acrescenta que a marginalidade está concentrada na frente do palco principal do Parque do Povo, onde ocorrem os grandes shows da festa. “Os incidentes de furtos e brigas acontecem lá”, sentencia. Segundo os policiais, na época em que o palco principal era próximo da parte mais elitizada, a ‘Pirâmide’ realmente possuia os maiores índices de violência da festa.
Outra grande festa
Assim como no São João de Campina Grande, o maior carnaval do mundo, em Salvador, também apresenta suas próprias contradições. Apesar de os trios elétricos e as grandes atrações desfilarem pelas ruas, os espaços da folia são muito bem delimitados: camarotes e cordas são os responsáveis por dividir a festa de acordo com o poder aquisitivo. De maneira semelhante ao que acontece em Campina Grande, a divisão está enraizada: cada um sabe o seu lugar.
* Os repórteres que produziram essa matéria são do PETCOM da Universidade Federal da Bahia – UFBA e participaram do Projeto Repórter Junino 2010.
