SÉRIE ESPECIAL | PERFIS DO SÃO JOÃO: O verdadeiro segredo de sucesso do “Bom que Dói”

Campina Grande, 22 de junho de 2019  ·  Escrito por Pâmela Vital  ·  Editado por Inaldete Almeida  ·  Fotos de Thiago Albuquerque e Carla Miranda

Bebidas esquentam os motores dos forrozeiros, mas nenhuma é tão famosa quanto à do quiosque de Fia do Bom que Dói, perto da Pirâmide do Parque do Povo.

 

A tão famosa Fia do Bom que Dói presente no Parque do Povo para esquentar as noites de São João. Foto Thiago Albuquerque

 

 Uma das primeiras regras tácitas para você conhecer verdadeiramente o Parque do Povo é passar na Pirâmide. Lugar de renome internacional quando se fala no Maior São João do Mundo, é lá onde turistas e moradores (provavelmente os mais alterados pelo álcool ou os curiosos que raramente vão ao Quartel General do Forró) estão aproveitando um trio pé de serra. Durante os trinta dias de festa, também é palco de programas locais voltados para cultura popular como o Momento Junino da TV Borborema e a edição deste ano da competição Arretado Star.

Mas não é apenas por isso que muitos jovens forrozeiros também circulam pelo local. Para o frequentador “raiz”, aquele morador que vai três a cinco dias na semana aproveitar o arrasta pé, não é a comida oferecida pelas diversas barracas por perto ou o som empolgante do ritmo junino, muito menos as atrações regionais que mais chamam a sua atenção.

Por incrível que pareça, o que o faz realmente sair dos arredores do palco principal na área de cima ou dos restaurantes em baixo e ir para o centro do vulgo “PP” é nada menos que um simples quiosque, que já serviu até como plano de fundo para fotos de formandos de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba esta semana; e o nome dele é “Bom que Dói”.

Capitaneado por uma das mulheres mais simpáticas que esta repórter já teve a oportunidade de conhecer, e seu marido, o local serve de ponto de encontro para diversos forrozeiros “esquentarem os motores” nas noites frias de junho. Todos os anos trazendo inovações de drinks exóticos, como o “Coquetel de Laysa” ou a “Coquetel da Denise”, ambos os jornalistas da TV Paraíba, o empreendimento está presente há 24 anos na vida de um grande número de pessoas que decidem comemorar o São João no Parque do Povo.

Era o início da noite de terça feira, 18, quando a equipe se encaminhou para conversar com a Francilda dos Santos Silva, 43, ou, como popularmente é conhecida, Fia do Bom que Dói. Devido ao calendário religioso do dia, todo o perímetro do Parque do Povo estava estranhamente calmo. A atual administração pusera os segundos dias úteis de cada semana para artistas gospel, portanto, o fiel grupo de seguidores que tende a invadir a madrugada ao lado da barraca não estava presente; o que, no fim, foi benéfico, pois possibilitou um bate papo tranquilo com a proprietária.

Vencedora do Concurso de Decoração no Maior São João do Mundo por vários anos, Fia expõe com orgulho seu prêmio. Foto Carla Miranda.

Do interior de seu negócio, Fia revelou detalhes de sua vida que, muitos dos que a acompanham, não tem sequer conhecimento. Pensar que ela, com toda sua experiência no ramo de bebidas, poderia ter se tornado cabeleireira talvez deixasse muitos amantes dos seus coquetéis decepcionados. “Pois é, já fiz curso de cabeleireira, e até hoje meu esposo reclama”, falou em tom conspiratório enquanto o seu marido servia uma dupla de amigas que havia acabado de chegar ao balcão. “Mas acabei optando por trabalhar com a cachaça. Prefiro meus “bebinhos” a cuidar do cabelo dos outros”, confessou em desabafo para felicidade dos seus seguidores.

Acompanhada de sua filha, Erika, que cuida das redes sociais e de seu esposo, Edmilson Santiago, que também prepara as bebidas da noite, Fia comemora o sucesso do negócio. Tendo como cargo chefe o drink Bom que Dói, numa noite movimentada, ela fala que não é raro esvaziar um galão de 20 litros da substância. “A receita é um mistério, mas posso revelar que tem canela. Um amigo indiano uma vez me falou de uma crença deles sobre como a canela atraia mais pessoas para seu círculo de amizade; então, resolvi experimentar com os outros ingredientes e deu certo!”, comentou ao ser questionada sobre o curioso líquido transparente que atrai pessoas por onde passa.

 

Fia compartilhando o misterioso drink, Bom que Dói, com nosso fotógrafo Thiago Albuquerque.     Foto Carla Miranda.

Não é de se estranhar passar por perto da Pirâmide e escutar um grupo de amigos brindando com o copo na mão e tomando de vez o Bom que Dói, inclusive contando com Fia os acompanhando. Afinal, para chamar uma clientela e fazer frente a enorme concorrência do Quartel General do Forró, nada mais justo do que letras engraçadas e brincadeiras entre amigos. “O pessoal vem aqui, nos procura, pede o nosso drink e ainda participa com os brindes que bolamos todos os anos”, conta. Entre um dos que mais saem, o clássico “Arriba, abajo, al centro y adentro”, não poderia faltar.

 

 

 

Já para as mulheres empoderadas, Fia diz que duas das suas clientes mais antigas, Iasmim e Yale, resolveram escrever um brinde em parceria com os proprietários do quiosque. Tirando debaixo da mesa, ela começa a cantar em tom de humor:

“Um brinde a nós, mulheres, portadoras da sedução.

Que nenhum filho da p*** sabe dar valor

Que os nossos sejam os nossos

E que os delas sejam os nossos

E que os nossos nunca sejam delas!

E que se forem, sejam gays

Que os nossos filhos tenham pai rico e mãe gostosa

Bebo porque vejo no fundo desse copo a do homem amado

Morre afogado, filho da p***, desgraçado!”

 

Entretanto, aqueles que pensam só existir Bom que Dói, drinks especializados ou Fia durante os festejos juninos, estão enganados. O casal tanto participa de eventos durante o ano inteiro como tem um Food Truck com a ajuda de sua filha. “O resto do ano somos bargirl e barman, além de termos o nosso Food Truck, também com o nome de Bom que Dói, perto do Clube Campestre, mas dá para conciliar em junho. Acabamos fechando o mês inteiro e vindo para o Parque do Povo. Não sei o que faria se não estivéssemos por aqui!”, suspirou como mais uma das apaixonadas pelo indescritível astral que o Parque do Povo em época junina, tem.

Animada, dinâmica, sorridente e companheira de “shots”, Fia está presente em vídeos, reportagens, mensagens, fotos e recordações de milhares de visitantes que passaram pelo enfeitado quiosque Bom que Dói, fazendo a diferença na vida de muitos forrozeiros no Maior São João do Mundo nas últimas duas décadas. “Eu não só tenho clientes, eu tenho muitos amigos também”, finaliza erguendo o copo e convidando a equipe para um brinde. Não havia dúvidas; pelo seu jeito contagiante, a única certeza era de que, até o dia 07 de julho, ainda conquistaria inúmeros outros.

 

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