Mais do que um grupo musical, o movimento de Maracatu Baque Mulher representa resistência, acolhimento e voz para mulheres historicamente silenciadas. Em Campina Grande, o movimento completa cinco anos de atuação, consolidando-se como espaço de expressão cultural e fortalecimento feminino.

Repórter: Emily Piano
Fotografia: Emily Piano
Edição: Fernando Firmino
No último domingo (29), o grupo de maracatu, Baque Mulher realizou uma atividade no bairro do Tambor, com roda de conversa voltada às mulheres da comunidade, finalizando com uma apresentação. A ação integrou a programação de encerramento de um mês inteiro de atividades dedicadas ao Mês da Mulher.
Para a idealizadora das ações na comunidade, Maynara Santos, iniciativas como essa têm impacto direto no cotidiano local. “É uma iniciativa importante do ponto de vista da movimentação cultural, e que consegue fazer um bom debate em relação a isso, com a inserção, principalmente das mulheres, na vida cultural, para ter um momento de lazer aqui na comunidade, coisa que geralmente não acontece com as comunidades brasileiras que são territórios esquecidos pelo Estado.”, destaca.
Durante a roda de conversa, foram discutidos os desafios de ampliar o alcance das ações e o impacto gradual do trabalho desenvolvido pelo grupo. As participantes destacaram que as mudanças ocorrem de forma progressiva e exigem continuidade das ações, promovendo debates sobre cultura, gênero e direitos das mulheres.
A integrante do projeto há um ano, a estudante Joana Porto relata que a experiência no Baque Mulher trouxe mudanças significativas para sua vida. “Eu não conhecia muito sobre o maracatu aqui na cidade, mas desde o primeiro dia fiquei interessada. O grupo foi essencial, principalmente pelo acolhimento. Hoje me sinto parte de um grupo de mulheres fortes, que também me ajudou a lidar com a ansiedade”, afirma.

O movimento que foi criado no Recife, em 2008, chegou em Campina Grande em 2021.Segundo a coordenadora local, Cecília Amorim, o grupo surgiu como resposta a um cenário de desigualdade dentro dos próprios espaços culturais
“Aqui, em Campina, por ser uma cidade muito conservadora, mesmo tendo movimentos culturais, nós mulheres que fazíamos parte [desses movimentos], sentíamos muito machismo e ficávamos encurraladas. Em 2021, o baque mulher chega aqui na cidade trazendo esse respiro, pra gente se sentir segura fazendo o que gosta de fazer”, afirma a coordenadora.

Atualmente, o grupo se reúne no Centro Artístico Cultural (CAC), no centro da cidade, onde realiza oficinas e rodas de conversa. As atividades são abertas ao público e não exigem experiência musical prévia. Além da formação artística, o movimento atua como rede de apoio, promovendo ações em diferentes comunidades da cidade.
Ao final da programação no bairro do Tambor, o grupo se apresentou, levando ao público a força do maracatu e reafirmando a cultura como instrumento de resistência, pertencimento e transformação social.

História
Criado em 2008, no Recife, pela mestre Joana D’Arc Cavalcante, o Baque Mulher nasce a partir de uma tradição muito mais antiga: o maracatu de baque virado, manifestação cultural de origem afro-brasileira. Suas raízes começaram a crescer no período escravocrata, quando homens e mulheres utilizavam a música, a dança e os tambores como forma de preservar sua identidade cultural e religiosa, mesmo diante da repressão.
O maracatu está ligado à simbólica coroação dos Reis do Congo, uma forma de reconstruir, no Brasil, elementos das estruturas sociais africanas. Em meio à imposição do catolicismo e à marginalização de suas crenças, essas manifestações tornaram-se também espaços de resistência espiritual e cultural.
Além da percussão, o maracatu se expressa por meio das loas, cantos que resgatam memórias, narram histórias e dialogam com questões contemporâneas. São vozes que ecoam o passado e reafirmam a identidade afro-brasileira no presente.
Foi nesse contexto que, em 2008, Joana D’Arc Cavalcante se tornou a primeira mulher a ocupar o posto de Mestre da Nação de Maracatu Encanto do Pina, no Recife, cargo até então exclusivo de homens. No mesmo ano, ela fundou o Baque Mulher, inicialmente como um grupo formado apenas por mulheres.

O nome do projeto carrega um significado simbólico e político. “Baque” faz referência ao som característico do maracatu, enquanto “Mulher” reafirma o protagonismo feminino em um espaço historicamente negado a elas. Durante muito tempo, mulheres eram impedidas de tocar maracatu e, para participar, precisavam se disfarçar com roupas e acessórios masculinos.
A criação do Baque Mulher rompe com essa lógica. A partir da iniciativa da mestra Joana, surge a proposta de garantir às mulheres o direito de ocupar esse espaço sem precisar se esconder. Assim, o movimento afirma que elas podem tocar maracatu sendo quem são, vestindo suas saias e expressando sua identidade.
A iniciativa cresceu e, em 2014, passou a atuar também como movimento social, com foco em pautas como o combate à violência contra a mulher. O movimento ganhou força e passou a atuar pelo país todo, levando o Baque Mulher até Campina Grande em 2021.
Mais do que música, o Baque Mulher se consolida como um instrumento de transformação social. Entre tambores e vozes, o movimento segue ecoando resistência, identidade e autonomia feminina.
